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31 | Outubro

IBD

publicado em 31/10/2017

Vinho & Natureza


“No universo, só o homem como criatura inteligente existe para si mesmo; todas as outras coisas existem para ele”, São Tomás de Aquino (1227-1274).

 

“Dominai a terra!” ordena a Bíblia. Com este pensamento, o homem, o “rei da criação”, se tornou um déspota da natureza e por milênios depredou-a, provocando o efeito estufa, a destruição da camada de ozônio, a depredação das florestas, a deterioração do solo, a extinção de numerosas espécies de animais e vegetais, a poluição de rios e oceanos, a poluição das cidades pelo escapamento dos motores e o acumulo de restos radioativos. Os últimos séculos foram de antropocentrismo, com a exaltação do sujeito e de sua dominação sobre o objeto: o planeta. De um lado a cultura e a tecnologia, do outro a natureza selvagem, reduzida a estatísticas.

 

Tal descuido vem sendo percebido nas últimas décadas, quando a palavra “ecologia” ganhou amplo significado, tornando-se um domínio multidisciplinar, com ramificações na ética, ciência, política, teologia e filosofia. Temos vivido uma busca do homem por uma reconciliação com a natureza. Neste mesmo espaço de tempo o interesse pelo vinho cresceu imensamente. Coincidência? Vejamos como o homem conviveu com a natureza ao longo do tempo e qual o papel que cabido ao vinho neste relacionamento.

 

Antes de prosseguirmos, é importante definir o que é natureza. O conjunto de elementos (mares, montanhas, árvores, animais etc.) do mundo natural. A realidade. A essência. Para a ciência, o cosmo, com todos os seus fenômenos. Para Freud, nosso “Id”, a personalidade selvagem e inata que precede o “ego”. Para a filosofia, tudo que existe sem intromissão da reflexão humana. Para a teologia, o estado moral intocado pela graça divina. Tudo isso é como entendemos natureza hoje, e em todas estas acepções ela está segregada do homem civilizado.

 

Mas nem sempre foi assim. Na Antiguidade clássica existia uma certa intimidade entre o homem e a natureza. A filosofia grega via o homem como único ser capaz de escolha e decisão, portanto, o único sujeito ético. Como disse Aristóteles, “o fogo queima do mesmo modo na Grécia e na Pérsia, mas a natureza humana é mutável por causa de sua determinação”. Para os antigos, o ser humano, ao contemplar a natureza, se enche de entusiasmo. Para estas civilizações, o vinho, considerado divino, era uma dádiva da natureza, além de um dos agentes deste entusiasmo. Era, em muitas civilizações, um dos símbolos mais fortes da natureza e de sua benevolência com os homens, um elo entre o humano e o natural-divino.

 

Mesmo após a chegada da era cristã, na Idade Média, a essência deste pensamento permaneceu. O mundo medieval viveu em certo equilíbrio com a natureza. Embora o homem se visse como ser superior, para o qual se destinavam todos os demais, ele, porém, não podia abusar do mundo segundo sua vontade. A ordem hierárquica das coisas vinha de Deus, que ditava conceitos de justiça e de atitudes em relação aos seres naturais. Segundo Maria Luiza Landim, em seu livro “Ética e Natureza”, eram três as atitudes fundamentais do homem da Idade Média perante o mundo: “a possessão, o respeito e a adoração. Assim, a justiça em relação aos seres inferiores se exprime na atitude de possessão; a justiça em relação aos outros homens se exprime em respeito e, finalmente, a justiça em relação ao Ser Supremo se exprime pela adoração”. O vinho, cuja elaboração era totalmente empírica, era ao mesmo tempo um fruto da natureza e uma dádiva divina, presente no sacramento central da Igreja como o sangue de Cristo. A graça divina poderia exprimir-se através da natureza, concedendo boas safras ou punindo o homem com vinho ralo e amargo.

 

A grande ruptura entre homem e natureza veio com a Idade Moderna. Este período inaugura a exaltação da ciência e da tecnologia. O homem descobre que pode “mudar” a natureza a seu gosto. Esta perdeu seu mistério, não representa mais o cosmos a ser contemplado. O Iluminismo, as Grandes Navegações e a Revolução Industrial elegeram a razão e a cultura separando-a da natureza. Para Karl Marx, em “O Capital”, “o processo do trabalho é uma atividade deliberada para a adaptação das substâncias naturais aos desejos humanos; é a condição geral necessária para que se efetue um intercâmbio entre o homem e a natureza”.

 

A indústria do vinho refletiu esta realidade e obteve grande avanço. O comércio mundial do fermentado floresceu, seu cultivo foi levado aos novos continentes descobertos. Pasteur descobriu a fermentação alcoólica, as técnicas de cultivo e elaboração da bebida aperfeiçoaram-se e novos vinhos foram criados, como o Porto e o Champagne. Este nobre espumante, por exemplo, se tornou comercialmente viável apenas com o surgimento de garrafas de vidro mais fortes, produzidas industrialmente. O homem moderno se rejubilou consigo mesmo e brindou a seus feitos, subjugando a natureza selvagem e inculta. A filosofia moderna exaltou a razão e viu o homem como um ser antinatural ou supernatural, transcendendo a natureza e suas leis.


Oscar Wilde ilustrou o desprezo pela natureza de alguns artistas e intelectuais da época: “o que a arte realmente nos revela sobre a natureza é a sua falta de projeto, sua estranha crueza, sua extraordinária monotonia, sua condição absolutamente inacabada. A natureza tem boas intenções, mas não pode concretiza-las”.

 

Para Ernst Fischer, em seu livro “A Necessidade da Arte”, “o homem pagou um preço colossal por sua elevação a formas de maior complexidade e maior produtividade social. Em conseqüência da diferenciação de habilidades, da divisão do trabalho e da separação das classes, ele se alienou não só da natureza como de si mesmo”.

 

A primeira metade do século XX viu guerras, fome e um aumento demográfico exponencial. Usou-se de qualquer recurso disponível para incrementar a produção de alimentos e de bens, sem medir conseqüências. Os objetivos foram alcançados, mas a segunda metade do século XX experimentou uma espécie de ressaca destes abusos. Desastres biológicos se sucederam e  trouxeram as primeiras preocupações ecológicas. A vaca louca, frangos “bombados” e os transgênicos fizeram os consumidores pensar duas vezes antes de levar qualquer coisa à boca. No mundo do vinho, nas décadas de 60 a 80 a quantidade se sobrepôs à qualidade, aconteceram escândalos, como o de adulterações da bebida com metanol, resultando em mortes.

 

A natureza passou de mítica, a ser desbravada, à frágil, ameaçada, sob responsabilidade do homem. Seja por motivos éticos, teológicos ou políticos, o homem contemporâneo está, aos poucos, reintegrando-se ao mundo natural. O vinho está na vanguarda deste movimento. A produção de vinhos orgânicos ou biodinâmicos, teve um incremento de 600% entre 2000 e 2003. Hoje 3% da produção mundial do fermentado está nesta categoria, que já está presente em vários países, como França (principalmente na Borgonha e no Vale do Rhône), Espanha, Portugal, Estados Unidos, Chile e Argentina.

 

Mas o que são estes produtos? Trata-se apenas de moda, uma adesão superficial ao politicamente correto, ou este movimento realmente tem uma base científica e filosófica? Em primeiro lugar não existe “vinho biológico”, e sim vinho produzido a partir de uvas de agricultura biológica, já que esta é uma bebida fermentada e, da uva até o vinho, há inúmeras etapas de transformação. Estas novas correntes não propõem uma volta ao passado, mas uma evolução, com novas técnicas, em harmonia com o ambiente.

 

Podemos dividir estes “eco-vinhos” em dois grandes grupos: os orgânicos e os biodinâmicos. Os ditos orgânicos (também chamados de ecológicos ou biológicos), são elaborados com uvas cultivadas organicamente, sobre terreno tratado manualmente, fertilizadas de formas naturais por meio de adubos animais e vegetais, sem presença de fungicidas, herbicidas ou qualquer outro produto químico. Para evitar o uso de pesticidas, os orgânicos utilizam cobre, enxofre, inseticidas de origem vegetal, além de cultivar, entre as videiras, algumas espécies vegetais que espantam os insetos. Outros irrigam os vinhedos com um suco à base de ervas que elimina as pragas.

 

A biodinâmica seria uma corrente xiita dentro deste movimento, agregando aspectos filosóficos, políticos e religiosos. A palavra “biodinâmica” designa o estudo do movimento e do posicionamento dos organismos vivos. O criador desta ciência foi o pensador espiritualista austríaco Rudolf Steiner (1861-1925), fundador da Antroposofia, uma doutrina que, com base na teosofia (ciência de Deus) procura refletir sobre a condição humana. O tema central da biodinâmica é o ser humano, que baseia sua agricultura em preceitos e espirituais na observação e compreensão da dinâmica da natureza. As técnicas biodinâmicas de produção de vinhos são bastante complexas, envolvendo o estudo do posicionamento dos planetas, uso de pesticidas naturais administrados nos vinhedos de forma homeopática, buscando fortalecer o ambiente contra pragas e não combatê-las com remédios químicos. Dito assim soa quase esotérico, mas os resultados são surpreendentes, basta dizer que alguns dos maiores vinhos do mundo são totalmente biodinâmicos, como os de Michel Chapoutier (Rhône), Domaine de La Romanée Conti e Domaine Leflaive.

 

As agriculturas orgânicas usam de alta tecnologia e possuem entidades certificadoras em diversos países. No Brasil, o IBD (Instituto Biodinâmico –  http://www.ibd.com.br) faz este tipo de serviço, enquanto internacionalmente, o IFOAM (International Federation of Organic Agriculture Movements) é a entidade reguladora. No que diz respeito especificamente ao vinho, existem diversas entidades que cuidam do controle e certificação de produtos orgânicos/biodinâmicos em cada país e região. Os custos desta agricultura são, naturalmente, mais altos do que os convencionais e por si só não garantem a qualidade (no sentido restrito – aromas e sabores) dos vinhos.

 

Homem e natureza parecem ter encontrado um caminho convergente e o vinho é parte efetiva deste fenômeno, valorizado por ser natural, saudável, prazeroso, proporcionando “qualidade de vida”.

Fonte: Veja Rio Abril


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